quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida.


Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Inês Lourenço



Mo(o)re



"Um dia, o discípulo perguntou ao Mestre:
- Mestre, o que é a utopia?

O Mestre respondeu:
- Tu que és jovem e vês bem ao longe, vês a linha do horizonte? Caminhemos até lá.

... Assim caminharam durante três dias.

Ao fim do terceiro dia, quando o sol se estava a pôr, o Mestre perguntou ao discípulo:
- Diz-me, alcançámos já a linha do horizonte?

- Mestre, - respondeu o discípulo - a linha do horizonte continua tão distante como ontem e anteontem... por mais que caminhemos, nunca a poderemos alcançar...

- Pois é esse o significado da utopia - disse o Mestre - como a linha do horizonte, por mais que caminhemos nunca a poderemos alcançar...

- Mas, Mestre - retorquiu o discípulo - se não é possível alcançá-la, para que serve então a utopia?

- A utopia serve para caminharmos..."